Aspectos clínicos e fisiopatológicos da obesidade na doença cardiovascular

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Cardiometabólica

Aspectos clínicos e fisiopatológicos da obesidade na doença cardiovascular

Data de publicação: 03/02/2025

Descubra como os aspectos clínicos e fisiopatológicos complexos da obesidade impactam diretamente a saúde cardiovascular

Impactos da obesidade e correlação com a progressão de doenças cardiovasculares 

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A obesidade é uma epidemia mundial e um importante problema de saúde pública, impactando 650 milhões de adultos em 2016,1 serão aproximadamente 167 milhões em 20252 e uma prevalência estimada de 1 bilhão em 2030.1

Os mecanismos fisiopatológicos responsáveis pela obesidade são complexos e incluem fatores ambientais, neuro-hormonais, genéticos, farmacológicos e psicológicos.1,3  

As principais características fisiopatológicas da obesidade são o acúmulo de gordura ectópica, aumento dos adipócitos no tecido adiposo visceral e a desregulação da produção de adipocinas. Estas, levam a maior resistência à insulina, lipotoxicidade, disfunção endotelial, estresse oxidativo e ativação de vias pró-inflamatórias/pró-trombóticas, envolvidas na progressão de doenças cardiovasculares (CV), aumento do risco de eventos CV e desenvolvimento de doenças CV, como insuficiência cardíaca (IC), doença arterial coronária (DAC), hipertensão arterial (HA), fibrilação atrial (FA), acidente vascular cerebral (AVC) e morte CV.1,4-6 

Além disso, a coexistência de distúrbios metabólicos, como diabetes, HA, dislipidemia, apneia obstrutiva do sono, doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), doença renal crônica e distúrbios neuromusculares e ortopédicos, aumenta o impacto da obesidade na qualidade de vida, no prognóstico dos pacientes e aumenta o custo dos recursos de saúde.1,2 

Existem evidências suficientes que demonstram claramente a associação entre os fatores fisiopatológicos derivados da obesidade e o desenvolvimento de doenças CV, incluindo eventos ateroscleróticos, IC, FA e morte CV1 (Figura 1).  

SRAA: sistema renina-angiotensina-aldosterona.  

Adaptada de: Gallo G, et al., 2024.1 

Figura 1. Relação entre obesidade e desenvolvimento de doenças CV. 

As principais doenças CV e complicações derivadas dos mecanismos fisiopatológicos relacionados à obesidade estão descritas na Tabela 1.5 

Tabela 1. Resumo das doenças CV e complicações relacionadas à obesidade 

Doenças CV Complicações 
Estenose aórtica 
Insuficiência cardíaca 
Trombose venosa profunda 
Doença arterial periférica 
Doença arterial coronária 
Fibrilação atrial 
Hemorragia subaracnoide 
Aneurisma de aorta abdominal 
Hemorragia intracerebral 
Acidente vascular cerebral isquêmico 
Acidente isquêmico transitório 
Aneurisma aorta torácica 
Diabetes tipo 2 
Dislipidemia aterogênica 
Hipertensão arterial 
Apneia obstrutiva do sono 
Doença renal 
Doenças hepáticas gordurosas associadas ao metabolismo 
Síndrome do ovário policístico 
Hipogonadismo 
Condições musculoesqueléticas (ex.: artrite) 
Distúrbios psicológicos (ex.: depressão) 
Migrânea 

Adaptada de: Lopez-Jimenez F, et al., 2022.5 

Fisiopatologia da obesidade e fatores inflamatórios associados às doenças cardiovasculares

A obesidade se desenvolve principalmente devido a um desequilíbrio entre a ingestão calórica e o gasto energético. Quando a ingestão energética é maior do que a necessária, ocorre o armazenamento de gordura e glicogênio no tecido adiposo subcutâneo e órgãos.2 

O tecido adiposo pode ser dividido em tecido adiposo branco e marrom. O primeiro se caracteriza por ser um órgão endócrino ativo e por armazenar importante conteúdo lipídico. O tecido adiposo marrom, que representa somente 1% a 2% de gordura, promove a termogênese adaptativa, produzindo calor mediante estimulação beta-adrenérgica ou exposição ao frio, e apresenta efeitos benéficos na glicemia. O tecido adiposo branco, dividido em dois tipos de armazenamento (tecido adiposo visceral (TAV) e subcutâneo (TAS), está diretamente relacionado ao desenvolvimento de doenças CV.2  

Outro importante fator fisiopatológico da obesidade é o estado inflamatório crônico de baixo grau, provocado pelo aumento da infiltração do tecido adiposo por macrófagos ativados, que secretam citocinas inflamatórias (TNF-a, IL-6, IL-8, IL-4, IL-10, IL-13, IL-19, entre outras), adipocinas (leptina, adiponectina, visfatina e resistina etc.) e constituintes da matriz extracelular (ECM).2  

As citocinas inflamatórias liberadas pelo tecido adiposo contribuem para a progressão da síndrome metabólica, além do aumento do risco de vários tipos de câncer. O aumento sanguíneo de ácidos graxos livres em obesos aumenta a expressão do fator de crescimento endotelial vascular A (VEGF-A) e vimentina, resultando em resistência à insulina e esteatose no fígado. Além disso, a superexpressão de fator de necrose tumoral (FNT-a) e leptina pode inibir a ativação do receptor de insulina e induzir resistência à insulina no músculo, no fígado e em células das ilhotas alfa e levar ao desenvolvimento de diabetes tipo 2 (DM2).2  

A obesidade também pode causar acúmulo de lipídios no fígado, músculo, pâncreas, tecido epicárdico e perivascular, tecido adiposo epicárdico e perivascular (PVAT), com consequente hipóxia, disfunção tecidual e infiltração de macrófagos, levando ao aumento de fatores inflamatórios associados à doença CV e que podem resultar em aumento do átrio esquerdo e volume sistólico, aumento do volume sanguíneo total e central, diminuição da resistência vascular sistêmica, débito cardíaco, pressão de enchimento do ventrículo esquerdo e pressão arterial pulmonar.2  

Em resumo e de maneira sistemática, os principais fatores causais e consequências cardiovasculares da obesidade estão demonstrados na Figura 2.6 

ICFEr: insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida; ICFEp: insuficiência cardíaca com fração de ejeção preservada. 

Adaptada de: Koskinas KC, et al., 2024.6 

Figura 2. Principais fatores causais e consequências cardiovasculares da obesidade. 

Importância do tratamento da obesidade

A obesidade é uma doença prevenível e tratável. O manejo das condições relacionadas à obesidade deve conter uma estratégia terapêutica farmacológica, nutricional e comportamental que vise reduzir o peso corporal, aumentar a atividade física, controlar a pressão arterial e os níveis de lípides e de glicose, de maneira precoce e intensiva, com o objetivo de reduzir especialmente o excesso de tecido adiposo visceral para reduzir a incidência de eventos CV, renais e cerebrovasculares e melhorar a qualidade de vida dos pacientes com sobrepeso e obesidade.1,3,6 

Material destinado a profissionais de saúde habilitados a dispensar e/ou prescrever medicamentos. Este material é de uso exclusivo, sem autorização de postagem e/ou compartilhamento. Desenvolvido em Outubro de 2024. 

Referências 

  1. Gallo G, Desideri G, Savoia C. Update on Obesity and Cardiovascular Risk: From Pathophysiology to Clinical Management. Nutrients. 2024;16(16):2781.  
  1. Jin X, Qiu T, Li L, Yu R, Chen X, Li C, et al. Pathophysiology of obesity and its associated diseases. Acta Pharm Sin B. 2023;13(6):2403-24.  
  1. Sarzani R, Landolfo M, Di Pentima C, Ortensi B, Falcioni P, Sabbatini L, et al. Adipocentric origin of the common cardiometabolic complications of obesity in the young up to the very old: pathophysiology and new therapeutic opportunities. Front. Med. 2024;11:1365183. 
  1. Sood S, Mittal N, Singh TG, Devi S. Pathogenesis of obesity-associated cardiovascular diseases: Key role of biomolecules. Health Sciences Review, 2023.7:100098. 
  1. Lopez-Jimenez F, Almahmeed W, Bays H, Cuevas A, Di Angelantonio E, le Roux CW, et al. Obesity and cardiovascular disease: mechanistic insights and management strategies. A joint position paper by the World Heart Federation and World Obesity Federation. Eur J Prev Cardiol. 2022;29(17):2218-37.  
  1. Koskinas KC, Van Craenenbroeck EM, Antoniades C, Blüher M, Gorter TM, Hanssen H, et al. Obesity and cardiovascular disease: an ESC clinical consensus statement. Eur Heart J. 2024:;45(38):4063-4098.